{"id":195,"date":"2022-07-02T16:04:00","date_gmt":"2022-07-02T19:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/psicologacamilamazzanti.com.br\/site\/?p=195"},"modified":"2022-07-02T16:08:21","modified_gmt":"2022-07-02T19:08:21","slug":"eros-e-psique-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/psicologacamilamazzanti.com.br\/site\/?p=195","title":{"rendered":"Eros e Psique parte II"},"content":{"rendered":"<p>Por Camila Mazzanti<\/p>\n<p>Do ponto de vista desenvolvimentista, o mito pode ser interpretado como um processo de individua\u00e7\u00e3o feminina. Psique inicialmente encontra-se em uma condi\u00e7\u00e3o urob\u00f3rica, isto \u00e9, indissociada e inconsciente de seus processos ps\u00edquicos, o que comprova-se pela confus\u00e3o que a humanidade faz entre Psique e V\u00eanus, entre\u00a0 o humano e o divino, o complexo e o arqu\u00e9tipo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s saber de seu cruel destino de casar-se com o monstro, Psique enfrentar\u00e1 \u201cn\u00fapcias de morte\u201d, anunciando a ocorr\u00eancia de um ritual feminino de entrada para a vida adulta. A psicologia feminina matriarcal v\u00ea o macho como violador, hostil e portador de morte; morte da virgindade e, portanto, da inf\u00e2ncia; morte da rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filha: a experi\u00eancia de deixar a menina morrer em si para o nascimento da mulher.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s consumado o casamento, Psique passa a viver uma rotina de encontros noturnos com seu marido, da qual n\u00e3o pode conhecer o rosto. Pode-se dizer que apaixona-se inconscientemente, pois a paix\u00e3o \u00e9 arquet\u00edpica, e n\u00e3o uma escolha da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>Come\u00e7am a surgir as ang\u00fastias de Psique em rela\u00e7\u00e3o a sua fam\u00edlia, um dos primeiros movimentos de sair da condi\u00e7\u00e3o urob\u00f3rica e elaborar quest\u00f5es conscientemente.\u00a0<em>Surgem, na sequ\u00eancia, suas irm\u00e3s, com forte e marcante inveja. Neumann sugere tratarem-se dos complexos que comp\u00f5em os aspectos sombrios de Psique. S\u00e3o elas que a levam a se movimentar e sair do para\u00edso da inconsci\u00eancia e questionam as proibi\u00e7\u00f5es feitas por Eros: por que Psique n\u00e3o pode ver o marido, nem saber quem ele \u00e9? Podemos compreender \u201cas irm\u00e3s\u201d como complexos aut\u00f4nomos que se constelam, gerando consci\u00eancia. Se antes a mo\u00e7a vivia uma embriaguez nos bra\u00e7os do marido, necess\u00e1rio se faz, agora, que se empenhe a caminho da amplifica\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia ps\u00edquica (reflexiva) feminina.\u00a0<\/em>(RIBEIRO, 2012, p. 35)<\/p>\n<p>A partir do momento em que psique deseja saber quem \u00e9 o marido ela abandona a inconsci\u00eancia infantil, o receio e o \u00f3dio ao masculino (constituintes da fase urob\u00f3rica inicial) deixando de ser v\u00edtima. Percebe que a paix\u00e3o se configura como um monstro que subjuga o ser, tal qual o or\u00e1culo previra e inicia seu movimento da alma feminina que toma o pr\u00f3prio destino. Eros \u00e9 colocado agora como um igual.<\/p>\n<p>Psique por n\u00e3o se submeter mais ao marido, decide enfrent\u00e1-lo, seguindo o conselho de suas irm\u00e3s. Expia a imagem do marido adormecido, dando de cara com o pr\u00f3prio amor. Eros a abandona, e esse movimento de separa\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ao desenvolvimento de ambos, pois Eros precisa \u201chumanizar-se\u201d, distanciar-se de seu estado arquet\u00edpico e superar seu pr\u00f3prio complexo materno. Psiqu\u00ea necessita da separa\u00e7\u00e3o para desenvolver-se em seu processo de individua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A primeira tarefa que Psiqu\u00ea realiza para Afrodite tem exemplifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do primeiro movimento de sair da condi\u00e7\u00e3o urob\u00f3rica onde tudo est\u00e1 indissociado, misturado, como as sementes que ela precisa separar e atrav\u00e9s de um princ\u00edpio inconsciente ela consegue\u00a0 selecionar, peneirar, correlacionar, avaliar e, portanto, encontrar seu pr\u00f3prio rumo no meio da confus\u00e3o.<\/p>\n<p>Os carneiros da segunda tarefa representam o poder do masculino e enfrent\u00e1-los seria fatal, portanto o Junco a aconselha a esperar. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a luta e sim a espera. Aguardar, ter paci\u00eancia \u00e9 qualidade do feminino. A pr\u00f3pria natureza, o feminino primordial, ensina a paci\u00eancia atrav\u00e9s de ciclos, em que tudo vem ao seu tempo.<\/p>\n<p>Na terceira tarefa Psique deve capturar a \u00e1gua de uma fonte na montanha, por\u00e9m esta montanha \u00e9 guardada por um terr\u00edvel drag\u00e3o. A \u00e1gua, como simb\u00f3lico do fluxo da vida n\u00e3o pode ser contida pelo ego, pois tamanha energia arquet\u00edpica o destruiria. Somente o Self poderia executar a tarefa, portanto a \u00e1guia de Zeus (representante do Self) finaliza a tarefa para Psique.<\/p>\n<p>Nas tr\u00eas primeiras tarefas Psique teve ajuda do inconsciente, a quarta dever\u00e1 ser realizada por ela mesma, a consci\u00eancia. A torre, s\u00edmbolo da cultura humana, por se tratar de uma constru\u00e7\u00e3o da humanidade, aconselha Psique no caminho ao mundo inferior, onde buscar\u00e1 a beleza de Pers\u00e9fone e entregar\u00e1 a Afrodite. Al\u00e9m de ter de trazer aspectos inconscientes de sua sombra ao consciente, caminho que faz parte da individua\u00e7\u00e3o, Psique ainda enfrentar\u00e1 o feminino arquet\u00edpico central, a grande m\u00e3e (Afrodite \u2013 Pers\u00e9fone).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s retornar do mundo inferior com a beleza de Pers\u00e9fone, \u201cfalha\u201d na tarefa, pegando a beleza para si, dessa forma Psique tra\u00ed a Grande M\u00e3e e separa-se desta esfera arquet\u00edpica, diferencia-se. O ato a faz cair em sono profundo, despertando a aten\u00e7\u00e3o de Eros, que ao ver a amada em perigo, sai do castelo da m\u00e3e para salv\u00e1-la. Ele desafia as ordens de Afrodite, libertando-se do complexo materno e indo de encontro \u00e0 anima.<\/p>\n<p>A jornada de Psique liberta Eros de seu encarceramento materno, que de menino imaturo, torna-se homem her\u00f3ico. Apesar de o mito simbolizar o desenvolvimento da psique feminina, n\u00e3o \u00e9 apenas Psique que se tranforma, sua evolu\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m transforma Eros.<\/p>\n<p>Psique, por meio de suas provas, alcan\u00e7a sua diviniza\u00e7\u00e3o, individua\u00e7\u00e3o (subida ao Olimpo), enquanto Eros, por meio de Psique, humaniza-se e aprende a amar n\u00e3o com os sentidos, mas com a alma.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/p>\n<p>RIBEIRO, Ana Luisa Silva.\u00a0<strong>EROS E PSIQUE:\u00a0<\/strong>A AVENTURA PSICOL\u00d3GICA DE VIVER POR AMOR \u00c0 ALMA. 2012. 98 f. Monografia (Especializa\u00e7\u00e3o) \u2013 Curso de Psicologia Anal\u00edtica, Sociedade Brasileira de Psicologia Anal\u00edtica, S\u00e3o Paulo, 2012. Dispon\u00edvel em: &lt;http:\/\/sbpa.org.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/monografia-Ana_Luisa.pdf&gt;. Acesso em: 19 jul. 2019.<\/p>\n<p>FONSECA, Fabiano Silva da; FERES, Cl\u00e1udia Mendes.\u00a0<strong>EROS E PSIQU\u00ca:\u00a0<\/strong>QUANDO A ALMA \u00c9 TOCADA PELO AMOR. 2008. 64 f. Monografia (Especializa\u00e7\u00e3o) \u2013 Curso de Psicologia, Faculdade de Ci\u00cancias da Educa\u00c7\u00c3o e Sa\u00dade, Bras\u00edlia, 2008. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/repositorio.uniceub.br\/jspui\/bitstream\/123456789\/2695\/2\/20460497.pdf&gt;. Acesso em: 19 jul. 2019.<\/p>\n<p>APULEIO, L. Metamorfoses, o Asno de Ouro. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1963.<\/p>\n<p>Ch\u00e9rolet, Brenda. Deus Eros; Guia Estudo. Dispon\u00edvel em &lt;\u00a0 https:\/\/www.guiaestudo.com.br\/deus-eros &gt;. Acesso em 19 de julho de 2019 \u00e0s 13:58.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Camila Mazzanti Do ponto de vista desenvolvimentista, o mito pode ser interpretado como um processo de individua\u00e7\u00e3o feminina. 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